quarta-feira, 6 de março de 2013

No pais dos homens - Hisham Matar





Orelhas do livro

O verão de 1979 é mais uma temporada de calor extremo em Trípoli, capital da Líbia, na costa do Mediterrâneo. Aos olhos do pequeno Suleiman, este é um período de férias e brincadeiras com amigos da Rua da Amora, onde vive. Ele acaba de voltar de uma excursão a Leptis Magna, um rico sítio arqueológico com ruínas do Império Romano.

O pai, a quem ele chama de Baba, está no exterior a negócios, como de hábito. A mãe leva o garoto às compras e lhe dá os deliciosos doces de gergelim de que tanto gosta. No tempo livre, Suleiman pratica o piano, freqüenta a oficina no telhado de casa, rouba amoras no quintal do vizinho e relembra as aulas sobre o Corão dadas pelo xeique Mustafá.

Mas os últimos dias acontecimentos estranhos despertam a atenção do garoto. Numa de suas idas ao mercado com a mãe, ele tem certeza de ver o pai passar apresado, justo quando deveria estar viajando. A mãe agora fica doente com mais freqüência, sempre que o pai “viaja”, e o garoto precisa cuidar dela enquanto o marido não volta. Um vizinho é detido pela guarda revolucionária de Muammar al-Kadhafi, o ditador que háq dez anos assumiu o poder na Líbia; e só reaparece para ser enforcado ao vivo na TV. Circulam rumores de que era um “traidor”.

Como se não bastasse, membros do Comitê Revolucionário, ligado ao ditador, começam a rondar a casa do menino. O pai, agora desaparecido há alguns dias, está sendo procurado. A mãe resolve se livrar dos livros “suspeitos” que mantém tem na biblioteca e substituir a pintura da sala por um retrato de Kadhafi, “o Guia da Revolução Popular Líbia”.

Nos anos mais violentos da ditadura militar instalada em 1963, uma criança percebe que está deixando o espaço da infância para ingressar num mundo tenso e violento – o país dos homens, um lugar feito de segredos, dúvidas, desconfiança, hipocrisia, renúncia e traição.

Nenhum comentário:

Postar um comentário