Orelhas do livro
O verão de 1979 é mais uma temporada de calor extremo em Trípoli,
capital da Líbia, na costa do Mediterrâneo. Aos olhos do pequeno Suleiman, este
é um período de férias e brincadeiras com amigos da Rua da Amora, onde vive. Ele
acaba de voltar de uma excursão a Leptis Magna, um rico sítio arqueológico com
ruínas do Império Romano.
O pai, a quem ele chama de Baba, está no exterior a negócios,
como de hábito. A mãe leva o garoto às compras e lhe dá os deliciosos doces de
gergelim de que tanto gosta. No tempo livre, Suleiman pratica o piano, freqüenta
a oficina no telhado de casa, rouba amoras no quintal do vizinho e relembra as
aulas sobre o Corão dadas pelo xeique Mustafá.
Mas os últimos dias acontecimentos estranhos despertam a
atenção do garoto. Numa de suas idas ao mercado com a mãe, ele tem certeza de
ver o pai passar apresado, justo quando deveria estar viajando. A mãe agora fica
doente com mais freqüência, sempre que o pai “viaja”, e o garoto precisa cuidar
dela enquanto o marido não volta. Um vizinho é detido pela guarda revolucionária
de Muammar al-Kadhafi, o ditador que háq dez anos assumiu o poder na Líbia; e só
reaparece para ser enforcado ao vivo na TV. Circulam rumores de que era um “traidor”.
Como se não bastasse, membros do Comitê Revolucionário,
ligado ao ditador, começam a rondar a casa do menino. O pai, agora desaparecido
há alguns dias, está sendo procurado. A mãe resolve se livrar dos livros “suspeitos”
que mantém tem na biblioteca e substituir a pintura da sala por um retrato de
Kadhafi, “o Guia da Revolução Popular Líbia”.
Nos anos mais violentos da ditadura militar instalada em
1963, uma criança percebe que está deixando o espaço da infância para ingressar
num mundo tenso e violento – o país dos homens, um lugar feito de segredos, dúvidas,
desconfiança, hipocrisia, renúncia e traição.
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